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A herança de Herman Rorschach

Publicado a por
Sofia Soares Pereira

Comemorou-se no ano passado os 90 anos da publicação do trabalho de Herman Rorschach – “Psicodiagnóstico Rorschach”.

A partir da corrente psicanalítica, influenciado por Bleuler e Jung, o trabalho de Herman Rorschach provocou grande interesse em muitos autores e tem sido bastante utilizado em todo o mundo nas áreas da justiça, clínica, educação, neurociências, social e do trabalho, investigações entre outros. Herman Rorschach faleceu em 1922 em Herisau – Suiça, no ponto alto da sua carreira, deixando por completar a sua obra. Devido a este acontecimento, o autor da prova das manchas de tinta não completou as grelhas interpretativas nem o seu quadro teórico. Deste modo nasceram várias escolas de investigação e utilização do Rorschach, na medida em que foram vários os seus sucessores, cada um com a sua sistematização. Oberholzer, com publicações posteriores à morte de Herman Rorschach; Ben-Echemburg, com a sua técnica paralela ao Rorschach que realizou juntamente com o próprio autor; Hans Binder, com a matização das respostas de sombreado; Walter Morgenthaler, com os seus diferentes estudos na técnica de eleicção dos cartões que o examinado mais gosta e menos gosta; Margarita Loosli-Usteri e Edwald Bohm e muitos outros autores, que seguiram as directrizes do autor das manchas de tinta. No entanto, cada um destes sistemas tinha um ponto em comum: mantinham-se fiéis às ideias originais de Herman Rorschach. As diferenças residiam no suporte teórico dos seus sucessores. Na Europa, os mais conhecidos são os sistemas de Loosli-Usteri e Bohm. Nos Estados Unidos, principalmente os de Klopfer, Beck, Piotrowski, Hertz e Rapaport. As divulgações e as investigações desenvolvidas por estes autores permitiram um aperfeiçoamento da técnica e uma melhor compreensão da mesma, quer nos Estados Unidos, quer na Europa. Em 1957 estavam consolidados os diferentes sistemas de Rorschach, sem que nenhum dos seus sistematizadores chegasse a acordo para a integração num só sistema. Existia até investigações entre 1950 e 1970 que iam neste sentido, mas eram excepções. Uma destas excepções foi publicada por John E. Exner, Jr em 1969. Beck e Klopfer incentivaram esta publicação. Este resultado demonstra as diferenças inter-sistémicas (por exemplo, apenas dois dos cinco coincidiram nas instruções sobre como sentar o examinado perante o psicólogo). Cada sistema desenvolveu a sua própria forma de codificar as respostas, sendo os modelos muito diferentes entre si. Exner compilou todos os trabalhos das cinco escolas de Rorschach, criando assim o Sistema Compreensivo. Os cartões mantiveram as suas características originais, a alteração foi que deixou de ser uma ferramenta experimental para passar a ter uma correcção objectiva e manter o carácter projectivo por natureza. Este Sistema foi introduzido em Portugal pelo Professor Doutor Danilo R. Silva na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Lisboa.

Antes do falecimento de Herman Rorschach (1921), o autor referiu que o seu trabalho constituía apenas um começo e que não estaria nada definitivo uma vez que tinha a certeza que havia dados importantes que faltavam encontrar. Foi neste sentido que o Doutor José Rodrigues Isidoro, professor e director da Faculdade de Psicologia da Universidade de Salamanca, editou pela primeira vez em 1975 três cartões projectivos a serem aplicados imediatamente após o último cartão de Rorschach. Estes cartões, com segunda edição em 2010, foram denominados Cartões Projectivos JRI e servem essencialmente como complemento aos dez cartões de Herman Rorschach. São cartões monocromáticos com formas bastante particulares e foram elaboradas seguindo a mesma técnica que os outros dez. Muito há para se escrever sobre estes cartões, no entanto, neste artigo, destacam-se apenas alguns pontos.

“Os princípios de simetria (ao ser manchas de tinta colocadas sobre um papel e posteriormente dobradas) foram respeitados e tidos em conta na sua elaboração”. (Jiménez, 1990)

Cabe ao técnico a escolha de aplicar ou não os cartões projectivos JRI. Se optar pela aplicação, deve ter em conta de que esta não é isolada, mas sim em conjunto, perfazendo um total de treze cartões apresentados ao examinado de forma contínua.

Os cartões projectivos JRI têm a mesma numeração romana, mas fazem-se acompanhar do símbolo + (mais). Os cartões são identificados como I+ (primeiro), II+ (segundo), III+ (terceiro). O cartão I+ é negro enquanto que os cartões II+ e III+ são vermelho-vivo.

Sendo as cores mais intensas, sentiu-se a necessidade de diferenciar o choque à cor rosa, azul, laranja, verde do choque ao vermelho. Dois destes três cartões projectivos são completamente vermelho-vivo, o que facilita a interpretação para um melhor diagnóstico.

“A nossa experiência tem demonstrado que há elementos importantes nos cartões projectivos JRI que de não aplicá-los podem passar despercebidos para o técnico que utiliza a prova”. (Jiménez, 1990)

Jiménez (1990), referiu que para além da importância da cor, o conteúdo e o movimento também determinam as respostas.

O cartão I+ é monocromático de cor negra. Suscita facilmente respostas ou sentimentos de nervosismo, dificuldade de interpretação e até mesmo bloqueio.

“Este cartão pode ajudar-nos a clarificar um possível choque ao cinza/negro que pode surgir num dos outros cartões de Rorschach, especialmente nos cartões I, IV e V”. (Jiménez, 1989)

Se o técnico tiver dúvidas na existência ou não de choque à cor, é possível que com o cartão I+ saia da dúvida. O negro e o cinza são particularmente importantes para um diagnóstico de angústia ou depressão. É um dos cartões mais aceites positivamente pelos examinados.

No cartão II+, o mais importante é o choque ao vermelho-vivo. É um cartão totalmente vermelho que depois do examinado ter percepcionado o negro no cartão anterior, pode ficar bloqueado com este. Se existir dúvidas nos cartões II e/ou III do Psicodiagnóstico de Rorschach, este cartão II+ ajuda a esclarecer.

Jiménez (1989), numa das suas obras investigou neste cartão o choque cinestésico com uma amostra de 526 adolescentes de ambos os sexos. Comprovou-se a existência de uma correlação muito alta deste choque cinestésico entre os cartões III do Psicodiagnóstico e o cartão II+ dos cartões projectivos JRI.

“Isto pode confirmar que um examinado que tenha um choque cinestésico ao cartão III, a probabilidade de ter o mesmo choque no cartão II+ é muito alta”. (Jiménez, 1989)

A este cartão é costume produzirem-se tantas respostas quantas as recolhidas no Psicodiagnóstico de Rorschach. A agressividade latente é notória neste cartão uma vez que há motivações inconscientes do examinado quando percebe que as duas figuras principais estão em movimento agressivo. Se não houver essa predisposição, os examinados referem que as figuras estão a relacionar-se pacificamente. A percepção de figuras humanas e em movimento é frequente neste cartão. Há assim um duplo sentido que dá abertura total para o examinado projectar a sua agressividade (se for o caso).

No cartão III+, encontramos novamente a cor vermelha acrescida do facto de não ser tão facilmente perceptível. Por este motivo, há um número elevado de respostas aos detalhes da mancha (D).

Jiménez (1989) afirma que a importância à cor vermelha é tão evidente que pode surgir também neste cartão, dando contributos importantes para a sintomatologia agressiva. Este cartão é muito rejeitado pelos examinados.

Os cartões projectivos JRI são um instrumento fundamental e de um poder inconfundível na avaliação de personalidade do examinado. Como atrás foi referido, estes catões complementam o Psicodiagnóstico Rorschach, é esse o seu principal objectivo.

Em resumo e de acordo com Jiménez (1989), as contribuições mais importantes são: 1º aumento do número de respostas e um menor tempo de reacção nos cartões projectivos JRI que no Psicodiagnóstico; 2º o valor sintomático das respostas de detalhe oligofrénico (Do); 3º a categoria dos determinantes (F) e a notável incidência de respostas de conteúdo humano e em movimento muito superiores nos cartões projectivos JRI que no Psicodiagnóstico; 4º a complementaridade de ambos os conjuntos de cartões é bastante perceptível: os conteúdos humanos (superior nos cartões projectivos JRI é inferior aos do Psicodiagnóstico) e os conteúdos animais (superior no Psicodiagnóstico e inferior nos cartões projectivos JRI); 5º através da análise de correlações entre o Rorschach e os cartões projectivos JRI podemos comprovar uma alta fiabilidade nos cartões projectivos JRI; 6º altíssima correlação entre os factores de angústia nos cartões projectivos JRI e Psicodiagnóstico de Rorschach; 7º os cartões projectivos JRI são essencialmente sensíveis em perturbações da personalidade; 8º notável riqueza psicodiagnóstica através dos diferentes choques proporcionados pela cor, pela cinestesia e pelos conteúdos agressivos; 9º os cartões projectivos JRI contribuem para a análise da personalidade, nomeadamente na sintomatología afectiva, angustiosa e agressiva da personalidade.

Num trabalho de investigação com mulheres vítimas de violência doméstica, desenvolvido por mim no ano de 2008, confirmou-se os itens acima identificados e destacou-se ainda outros: 1º forte projecção à cor nos cartões projectivos JRI; 2º aumento significativo de conteúdos sexuais, sangue, anatómicos e radiográficos; 3º aumento significativo de fenómenos especiais. Na Prova de Eleição de Morgenthaler, os cartões II+ e III+ foram os mais rejeitados.

Com ambos os conjuntos (Psicodiagnóstico Rorschach + Cartões Projectivos JRI) obtém-se uma quantidade e diversidade de variáveis que com as suas quase infinitas inter-relações bem como os diferentes tipos de informação que se cria torna-se a base do seu potencial.

O Psicodiagnóstico de Rorschach recebe assim um precioso complemento através da obra do Professor Doutor José Rodrigues Isidoro que contribui para uma avaliação da personalidade concreta e eficaz. Desde a particularidade dos seus estímulos, a riqueza informativa que gera, a impossibilidade de ser falseado, assim como a possibilidade de integração de dados quantitativos e qualitativos que oferece são, os principais motivos pelos quais se continua a realizar investigações dedicadas à sua eficácia, a 90 anos depois da sua publicação.

Artigo de opinião para o Portal dos Psicólogos: http://www.psicologia.pt/artigos/ver_opiniao.php?codigo=AOP0316

 

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