{"id":176,"date":"2012-07-23T21:05:35","date_gmt":"2012-07-23T21:05:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.sofiasoarespereira.com\/blog\/?p=176"},"modified":"2012-07-23T21:05:35","modified_gmt":"2012-07-23T21:05:35","slug":"a-heranca-de-herman-rorschach","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sofiasoarespereira.com\/blog\/a-heranca-de-herman-rorschach\/","title":{"rendered":"A heran\u00e7a de Herman Rorschach"},"content":{"rendered":"<p>Comemorou-se no ano passado os 90 anos da publica\u00e7\u00e3o do trabalho de Herman Rorschach \u2013 \u201cPsicodiagn\u00f3stico Rorschach\u201d.<\/p>\n<p>A partir da corrente psicanal\u00edtica, influenciado por Bleuler e Jung, o trabalho de Herman Rorschach provocou grande interesse em muitos autores e tem sido bastante utilizado em todo o mundo nas \u00e1reas da justi\u00e7a, cl\u00ednica, educa\u00e7\u00e3o, neuroci\u00eancias, social e do trabalho, investiga\u00e7\u00f5es entre outros. Herman Rorschach faleceu em 1922 em Herisau &#8211; Sui\u00e7a, no ponto alto da sua carreira, deixando por completar a sua obra. Devido a este acontecimento, o autor da prova das manchas de tinta n\u00e3o completou as grelhas interpretativas nem o seu quadro te\u00f3rico. Deste modo nasceram v\u00e1rias escolas de investiga\u00e7\u00e3o e utiliza\u00e7\u00e3o do Rorschach, na medida em que foram v\u00e1rios os seus sucessores, cada um com a sua sistematiza\u00e7\u00e3o. Oberholzer, com publica\u00e7\u00f5es posteriores \u00e0 morte de Herman Rorschach; Ben-Echemburg, com a sua t\u00e9cnica paralela ao Rorschach que realizou juntamente com o pr\u00f3prio autor; Hans Binder, com a matiza\u00e7\u00e3o das respostas de sombreado; Walter Morgenthaler, com os seus diferentes estudos na t\u00e9cnica de eleic\u00e7\u00e3o dos cart\u00f5es que o examinado mais gosta e menos gosta; Margarita Loosli-Usteri e Edwald Bohm e muitos outros autores, que seguiram as directrizes do autor das manchas de tinta. No entanto, cada um destes sistemas tinha um ponto em comum: mantinham-se fi\u00e9is \u00e0s ideias originais de Herman Rorschach. As diferen\u00e7as residiam no suporte te\u00f3rico dos seus sucessores. Na Europa, os mais conhecidos s\u00e3o os sistemas de Loosli-Usteri e Bohm. Nos Estados Unidos, principalmente os de Klopfer, Beck, Piotrowski, Hertz e Rapaport. As divulga\u00e7\u00f5es e as investiga\u00e7\u00f5es desenvolvidas por estes autores permitiram um aperfei\u00e7oamento da t\u00e9cnica e uma melhor compreens\u00e3o da mesma, quer nos Estados Unidos, quer na Europa. Em 1957 estavam consolidados os diferentes sistemas de Rorschach, sem que nenhum dos seus sistematizadores chegasse a acordo para a integra\u00e7\u00e3o num s\u00f3 sistema. Existia at\u00e9 investiga\u00e7\u00f5es entre 1950 e 1970 que iam neste sentido, mas eram excep\u00e7\u00f5es. Uma destas excep\u00e7\u00f5es foi publicada por John E. Exner, Jr em 1969. Beck e Klopfer incentivaram esta publica\u00e7\u00e3o. Este resultado demonstra as diferen\u00e7as inter-sist\u00e9micas (por exemplo, apenas dois dos cinco coincidiram nas instru\u00e7\u00f5es sobre como sentar o examinado perante o psic\u00f3logo). Cada sistema desenvolveu a sua pr\u00f3pria forma de codificar as respostas, sendo os modelos muito diferentes entre si. Exner compilou todos os trabalhos das cinco escolas de Rorschach, criando assim o Sistema Compreensivo. Os cart\u00f5es mantiveram as suas caracter\u00edsticas originais, a altera\u00e7\u00e3o foi que deixou de ser uma ferramenta experimental para passar a ter uma correc\u00e7\u00e3o objectiva e manter o car\u00e1cter projectivo por natureza. Este Sistema foi introduzido em Portugal pelo Professor Doutor Danilo R. Silva na Faculdade de Psicologia e de Ci\u00eancias da Educa\u00e7\u00e3o da Universidade de Lisboa.<\/p>\n<p>Antes do falecimento de Herman Rorschach (1921), o autor referiu que o seu trabalho constitu\u00eda apenas um come\u00e7o e que n\u00e3o estaria nada definitivo uma vez que tinha a certeza que havia dados importantes que faltavam encontrar. Foi neste sentido que o Doutor Jos\u00e9 Rodrigues Isidoro, professor e director da Faculdade de Psicologia da Universidade de Salamanca, editou pela primeira vez em 1975 tr\u00eas cart\u00f5es projectivos a serem aplicados imediatamente ap\u00f3s o \u00faltimo cart\u00e3o de Rorschach. Estes cart\u00f5es, com segunda edi\u00e7\u00e3o em 2010, foram denominados Cart\u00f5es Projectivos JRI e servem essencialmente como complemento aos dez cart\u00f5es de Herman Rorschach. S\u00e3o cart\u00f5es monocrom\u00e1ticos com formas bastante particulares e foram elaboradas seguindo a mesma t\u00e9cnica que os outros dez. Muito h\u00e1 para se escrever sobre estes cart\u00f5es, no entanto, neste artigo, destacam-se apenas alguns pontos.<\/p>\n<p>\u201cOs princ\u00edpios de simetria (ao ser manchas de tinta colocadas sobre um papel e posteriormente dobradas) foram respeitados e tidos em conta na sua elabora\u00e7\u00e3o\u201d. (Jim\u00e9nez, 1990)<\/p>\n<p>Cabe ao t\u00e9cnico a escolha de aplicar ou n\u00e3o os cart\u00f5es projectivos JRI. Se optar pela aplica\u00e7\u00e3o, deve ter em conta de que esta n\u00e3o \u00e9 isolada, mas sim em conjunto, perfazendo um total de treze cart\u00f5es apresentados ao examinado de forma cont\u00ednua.<\/p>\n<p>Os cart\u00f5es projectivos JRI t\u00eam a mesma numera\u00e7\u00e3o romana, mas fazem-se acompanhar do s\u00edmbolo + (mais). Os cart\u00f5es s\u00e3o identificados como I+ (primeiro), II+ (segundo), III+ (terceiro). O cart\u00e3o I+ \u00e9 negro enquanto que os cart\u00f5es II+ e III+ s\u00e3o vermelho-vivo.<\/p>\n<p>Sendo as cores mais intensas, sentiu-se a necessidade de diferenciar o choque \u00e0 cor rosa, azul, laranja, verde do choque ao vermelho. Dois destes tr\u00eas cart\u00f5es projectivos s\u00e3o completamente vermelho-vivo, o que facilita a interpreta\u00e7\u00e3o para um melhor diagn\u00f3stico.<\/p>\n<p>\u201cA nossa experi\u00eancia tem demonstrado que h\u00e1 elementos importantes nos cart\u00f5es projectivos JRI que de n\u00e3o aplic\u00e1-los podem passar despercebidos para o t\u00e9cnico que utiliza a prova\u201d. (Jim\u00e9nez, 1990)<\/p>\n<p>Jim\u00e9nez (1990), referiu que para al\u00e9m da import\u00e2ncia da cor, o conte\u00fado e o movimento tamb\u00e9m determinam as respostas.<\/p>\n<p>O cart\u00e3o I+ \u00e9 monocrom\u00e1tico de cor negra. Suscita facilmente respostas ou sentimentos de nervosismo, dificuldade de interpreta\u00e7\u00e3o e at\u00e9 mesmo bloqueio.<\/p>\n<p>\u201cEste cart\u00e3o pode ajudar-nos a clarificar um poss\u00edvel choque ao cinza\/negro que pode surgir num dos outros cart\u00f5es de Rorschach, especialmente nos cart\u00f5es I, IV e V\u201d. (Jim\u00e9nez, 1989)<\/p>\n<p>Se o t\u00e9cnico tiver d\u00favidas na exist\u00eancia ou n\u00e3o de choque \u00e0 cor, \u00e9 poss\u00edvel que com o cart\u00e3o I+ saia da d\u00favida. O negro e o cinza s\u00e3o particularmente importantes para um diagn\u00f3stico de ang\u00fastia ou depress\u00e3o. \u00c9 um dos cart\u00f5es mais aceites positivamente pelos examinados.<\/p>\n<p>No cart\u00e3o II+, o mais importante \u00e9 o choque ao vermelho-vivo. \u00c9 um cart\u00e3o totalmente vermelho que depois do examinado ter percepcionado o negro no cart\u00e3o anterior, pode ficar bloqueado com este. Se existir d\u00favidas nos cart\u00f5es II e\/ou III do Psicodiagn\u00f3stico de Rorschach, este cart\u00e3o II+ ajuda a esclarecer.<\/p>\n<p>Jim\u00e9nez (1989), numa das suas obras investigou neste cart\u00e3o o choque cinest\u00e9sico com uma amostra de 526 adolescentes de ambos os sexos. Comprovou-se a exist\u00eancia de uma correla\u00e7\u00e3o muito alta deste choque cinest\u00e9sico entre os cart\u00f5es III do Psicodiagn\u00f3stico e o cart\u00e3o II+ dos cart\u00f5es projectivos JRI.<\/p>\n<p>\u201cIsto pode confirmar que um examinado que tenha um choque cinest\u00e9sico ao cart\u00e3o III, a probabilidade de ter o mesmo choque no cart\u00e3o II+ \u00e9 muito alta\u201d. (Jim\u00e9nez, 1989)<\/p>\n<p>A este cart\u00e3o \u00e9 costume produzirem-se tantas respostas quantas as recolhidas no Psicodiagn\u00f3stico de Rorschach. A agressividade latente \u00e9 not\u00f3ria neste cart\u00e3o uma vez que h\u00e1 motiva\u00e7\u00f5es inconscientes do examinado quando percebe que as duas figuras principais est\u00e3o em movimento agressivo. Se n\u00e3o houver essa predisposi\u00e7\u00e3o, os examinados referem que as figuras est\u00e3o a relacionar-se pacificamente. A percep\u00e7\u00e3o de figuras humanas e em movimento \u00e9 frequente neste cart\u00e3o. H\u00e1 assim um duplo sentido que d\u00e1 abertura total para o examinado projectar a sua agressividade (se for o caso).<\/p>\n<p>No cart\u00e3o III+, encontramos novamente a cor vermelha acrescida do facto de n\u00e3o ser t\u00e3o facilmente percept\u00edvel. Por este motivo, h\u00e1 um n\u00famero elevado de respostas aos detalhes da mancha (D).<\/p>\n<p>Jim\u00e9nez (1989) afirma que a import\u00e2ncia \u00e0 cor vermelha \u00e9 t\u00e3o evidente que pode surgir tamb\u00e9m neste cart\u00e3o, dando contributos importantes para a sintomatologia agressiva. Este cart\u00e3o \u00e9 muito rejeitado pelos examinados.<\/p>\n<p>Os cart\u00f5es projectivos JRI s\u00e3o um instrumento fundamental e de um poder inconfund\u00edvel na avalia\u00e7\u00e3o de personalidade do examinado. Como atr\u00e1s foi referido, estes cat\u00f5es complementam o Psicodiagn\u00f3stico Rorschach, \u00e9 esse o seu principal objectivo.<\/p>\n<p>Em resumo e de acordo com Jim\u00e9nez (1989), as contribui\u00e7\u00f5es mais importantes s\u00e3o: 1\u00ba aumento do n\u00famero de respostas e um menor tempo de reac\u00e7\u00e3o nos cart\u00f5es projectivos JRI que no Psicodiagn\u00f3stico; 2\u00ba o valor sintom\u00e1tico das respostas de detalhe oligofr\u00e9nico (Do); 3\u00ba a categoria dos determinantes (F) e a not\u00e1vel incid\u00eancia de respostas de conte\u00fado humano e em movimento muito superiores nos cart\u00f5es projectivos JRI que no Psicodiagn\u00f3stico; 4\u00ba a complementaridade de ambos os conjuntos de cart\u00f5es \u00e9 bastante percept\u00edvel: os conte\u00fados humanos (superior nos cart\u00f5es projectivos JRI \u00e9 inferior aos do Psicodiagn\u00f3stico) e os conte\u00fados animais (superior no Psicodiagn\u00f3stico e inferior nos cart\u00f5es projectivos JRI); 5\u00ba atrav\u00e9s da an\u00e1lise de correla\u00e7\u00f5es entre o Rorschach e os cart\u00f5es projectivos JRI podemos comprovar uma alta fiabilidade nos cart\u00f5es projectivos JRI; 6\u00ba alt\u00edssima correla\u00e7\u00e3o entre os factores de ang\u00fastia nos cart\u00f5es projectivos JRI e Psicodiagn\u00f3stico de Rorschach; 7\u00ba os cart\u00f5es projectivos JRI s\u00e3o essencialmente sens\u00edveis em perturba\u00e7\u00f5es da personalidade; 8\u00ba not\u00e1vel riqueza psicodiagn\u00f3stica atrav\u00e9s dos diferentes choques proporcionados pela cor, pela cinestesia e pelos conte\u00fados agressivos; 9\u00ba os cart\u00f5es projectivos JRI contribuem para a an\u00e1lise da personalidade, nomeadamente na sintomatolog\u00eda afectiva, angustiosa e agressiva da personalidade.<\/p>\n<p>Num trabalho de investiga\u00e7\u00e3o com mulheres v\u00edtimas de viol\u00eancia dom\u00e9stica, desenvolvido por mim no ano de 2008, confirmou-se os itens acima identificados e destacou-se ainda outros: 1\u00ba forte projec\u00e7\u00e3o \u00e0 cor nos cart\u00f5es projectivos JRI; 2\u00ba aumento significativo de conte\u00fados sexuais, sangue, anat\u00f3micos e radiogr\u00e1ficos; 3\u00ba aumento significativo de fen\u00f3menos especiais. Na Prova de Elei\u00e7\u00e3o de Morgenthaler, os cart\u00f5es II+ e III+ foram os mais rejeitados.<\/p>\n<p>Com ambos os conjuntos (Psicodiagn\u00f3stico Rorschach + Cart\u00f5es Projectivos JRI) obt\u00e9m-se uma quantidade e diversidade de vari\u00e1veis que com as suas quase infinitas inter-rela\u00e7\u00f5es bem como os diferentes tipos de informa\u00e7\u00e3o que se cria torna-se a base do seu potencial.<\/p>\n<p>O Psicodiagn\u00f3stico de Rorschach recebe assim um precioso complemento atrav\u00e9s da obra do Professor Doutor Jos\u00e9 Rodrigues Isidoro que contribui para uma avalia\u00e7\u00e3o da personalidade concreta e eficaz. Desde a particularidade dos seus est\u00edmulos, a riqueza informativa que gera, a impossibilidade de ser falseado, assim como a possibilidade de integra\u00e7\u00e3o de dados quantitativos e qualitativos que oferece s\u00e3o, os principais motivos pelos quais se continua a realizar investiga\u00e7\u00f5es dedicadas \u00e0 sua efic\u00e1cia, a 90 anos depois da sua publica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Artigo de opini\u00e3o para o Portal dos Psic\u00f3logos: <a href=\"http:\/\/www.psicologia.pt\/artigos\/ver_opiniao.php?codigo=AOP0316\">http:\/\/www.psicologia.pt\/artigos\/ver_opiniao.php?codigo=AOP0316<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Comemorou-se no ano passado os 90 anos da publica\u00e7\u00e3o do trabalho de Herman Rorschach \u2013 \u201cPsicodiagn\u00f3stico Rorschach\u201d. A partir da corrente psicanal\u00edtica, influenciado por Bleuler e Jung, o trabalho de Herman Rorschach provocou grande interesse em muitos autores e tem sido bastante utilizado em todo o mundo nas \u00e1reas da justi\u00e7a, cl\u00ednica, educa\u00e7\u00e3o, neuroci\u00eancias, social [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.sofiasoarespereira.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/176"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.sofiasoarespereira.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.sofiasoarespereira.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sofiasoarespereira.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sofiasoarespereira.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=176"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.sofiasoarespereira.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/176\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":179,"href":"https:\/\/www.sofiasoarespereira.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/176\/revisions\/179"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.sofiasoarespereira.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=176"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sofiasoarespereira.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=176"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sofiasoarespereira.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=176"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}